ARTIGO| Sobre o dia do Psicólogo e algo mais - Jornal Correio MS

LEIA TAMBÉM

Home Top Ad

27/08/2021

ARTIGO| Sobre o dia do Psicólogo e algo mais

 

Autora: Kamila de Souza*
O psicólogo é um cientista e um profissional que estuda e intervém no conjunto de processos psicológicos, físicos, sociais e ambientais que atravessam os seres humanos e as suas relações. Profissão complexa, não? Trabalhar com aquilo que não se vê, mas que tem afeitos tão claros e precisos... O sofrimento, a angústia, o mal estar... O psicólogo lida com um resto que não aparece no exame médico, que a educação não dá conta e que a política não governa: a potência de ser gente!

Ser gente ultrapassa um corpo físico, um status, uma classe social. Ser gente diz de uma experiência última de singularidade durante a travessia da vida. Cada um tem uma história para contar dentro do recorte de tempo em que vive. Logo, ninguém vive a mesma vida. E, não, isso não é óbvio e não é uma abordagem romântica da nossa prática, mas a realidade que nos toca todos os dias. Nós apostamos na escuta para analisar, manejar e intervir sobre o sofrimento, sobre a angústia, a história e a dor da qual se tem notícias por seus efeitos nessa vida.

"O que te trouxe aqui?", "fale o que lhe vier à cabeça", "me conte o que houve", "me fale sobre o fundo dessa questão", "qual o seu lugar nesse sistema?", "a que se refere esse comportamento?", são modos de abrir essa escuta para o que o outro tem a dizer sobre si. Percebe? Não é papo furado, horinhas de conversa ou conselho. Psicólogo não é ajudante, não é amigo, não é padre, não é pastor, mas esse que escuta para intervir e não para emitir juízo de valor, não para adivinhar, não para curar, não para palpitar, e por aí vai!

Psicólogo não é "coisa de louco" ou está restrito à clínica. O psicólogo está e atua onde há relação humana, acompanhando a liquidez (expressão de Bauman) dos modos de ser e viver no mundo. Por isso, ele não tem resposta pronta, não tem dica, não tem regra, mas ética, compromisso e responsabilidade diante de um sujeito e do contexto.

Psicólogo não "tira as coisas da cabeça", mas estuda durante anos, faz sua análise, supervisiona seus atendimentos, participa de grupos de estudos, congressos, atualizações, precisa acessar livros, materiais interculturais... Diante de tudo isso, qual a razão de, ainda, colocarem de escanteio essa profissão trabalhosa, complexa e cara? Sim, a psicologia é cara e não digo só de dinheiro, mas de tempo, disposição, estudo... O profissional paga caro para trabalhar. Mas será, então, que é o profissional ou o povo que escamoteia e questiona o psicólogo e o seu lugar? Fica a questão.

O psicólogo faz presença quando todo o resto fez ausência. Ausência de palavra, de opção, de escolha, de carinho, de proteção, de afeto, de histórias, de esperança, de dor, de vida, de amparo... O psicólogo não é pai e mãe, porque até pai e mãe faz ausência. O psicólogo está presente nos postos de saúde, nas clínicas particulares, organizações, escolas, hospitais, nos espaços da justiça, nas universidades, nas emergências e nos desastres, dentre tantos outros lugares - como em nosso celular, dentro da nossa casa, agora na pandemia.

Caminhando para o fim e trazendo algo pessoal, me formei muito nova e não tinha dimensão das possibilidades dentro da minha profissão e de como a escuta é imperativa e tensiona as fronteiras de qualquer saber, de qualquer território e de qualquer certeza. A escuta técnica, ética e fundamentada é um bote no meio de um mar escuro e violento de gente que fala, fala e não escuta nada, acha, acha e não acha nada! A escuta salva do desespero solitário e da liberdade angustiante.

Quanto a mim, acordo todos os dias sabendo que fiz a escolha certa. Pago o preço por ser psicóloga, por carregar o nome da minha profissão e por disseminar uma ética através da minha prática. O que me lembra de um trecho de um livro do Khalil Gibran, onde ele diz que trabalhar com amor é "tecer uma roupa com fios do coração como se aqueles que amam fossem vesti-la". Tem muito amor, mas tem desafios, frustrações, perdas, erros e desencontros na mesma medida, mas eu insisto em oferecer esses fios para tecer junto uma roupa para cada corpo que desejar.

Enfim, ainda com Gibran, encerro pontuando algo aos meus colegas: "E, se não conseguirem trabalhar com amor, apenas com desgosto, é melhor que deixem o posto, sentem-se diante da porta de um templo e peçam esmola aos que trabalham com prazer."

Não só aos profissionais, mas ao povo: Feliz dia do Psicólogo!

*Psicóloga e Psicanalista em formação.

***