Jornalista perde pais e irmão em 8 dias: Senti que minha vida tinha acabado - Jornal Correio MS

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22/03/2021

Jornalista perde pais e irmão em 8 dias: Senti que minha vida tinha acabado

Súzan Benites, os pais e o irmão; todos pegaram covid-19, só ela sobreviveu ©Acervo pessoal
Em um intervalo de oito dias, a jornalista Súzan Benites, de 31 anos, perdeu os pais e o irmão para a covid-19 em Campo Grande.

O namorado dela também estava internado e intubado desde 12 março, no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, mas teve alta ontem. Quando foi buscar o namorado no hospital, Súzan ainda precisou dar a notícia de que a mãe dele havia precisado ser intubada enquanto ele estava sedado.

Ela contou que o pai foi o primeiro a apresentar sintomas. No final de fevereiro, teve dor de garganta e sintomas de gripe. A família logo acendeu o alerta para o risco de Atanacildo Benites Nara, de 60 anos, ter sido contaminado com o novo coronavírus.

"Na segunda [1º de março], meu irmão foi com ele ao posto de saúde perto da nossa casa. Foi examinado pelo médico, mas não fez o teste na hora. Ficou marcado para quarta daquela semana. Mas percebemos que ele não estava bem e decidimos procurar uma farmácia que fizesse o exame", contou Súzan.

No mesmo dia, a família descobriu que tanto Atanacildo quanto Roseneide Pereira Lima de Nara, de 55 anos, Rafael Francis Lima Benites, de 34, e Súzan estavam com covid-19. O namorado da jornalista, Bruno Nascimento, de 34, também testou positivo no mesmo dia.

Súzan explicou que, de início, todos ficaram mais preocupados com Atanacildo, que era quem já manifestava sintomas da doença. De acordo com ela, a mãe tinha obesidade e o irmão era hipertenso, mas o pai era saudável e fazia acompanhamento médico com frequência.

Em 3 de março, ela levou o pai ao posto de saúde e ele já precisou ficar internado. Foi transferido para o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul durante a madrugada.

"Um dia depois de ter sido internado, ele precisou ser intubado. A médica me ligou e disse que era muito grave, que era para eu preparar a família e que os próximos dias não seriam fáceis. O pulmão dele já estava 80% comprometido", lembrou ela.

Súzan contou que, desde que a família recebeu a notícia, a mãe ficou muito abalada. Casados há 38 anos, a incerteza de saber se o marido deixaria a UTI vivo fez com que Roseneide ficasse muito debilitada.

O irmão de Súzan começou a ter febre muito alta, que não diminuía com medicamentos. Rafael era o único que tinha plano de saúde da família e dirigiu sozinho até o Hospital da Unimed, onde foi internado em 7 de março.

No dia seguinte, a mãe dela manifestou sintomas mais graves da covid-19. No hospital, ela percebeu que Roseneide já estava com dificuldades para respirar.

Em 9 de março, a mãe de Súzan deu entrada no Hospital Regional. Mesmo dia em que o namorado também foi internado com saturação baixa e pulmão comprometido.
'Fiquei sozinha em casa'

Enquanto toda a família e o namorado já estavam internados, a jornalista também lutava pela vida. Ela também tinha sintomas como febre, cansaço e dor no corpo. Mas relatou que estava mais preocupada com os familiares.

"Ficava o dia inteiro esperando notícias deles. Cada boletim saía em um horário, somente o Hospital Unimed que me ligava e me passava o quadro do meu irmão", conta.

Em 11 de março, Súzan falou com Rafael pela última vez antes de ele ser transferido para a UTI, onde foi intubado. Nas mensagens, o irmão dizia estar com muito medo, pois já tinha sido informado sobre a necessidade de intubação.

"Essa foi nossa última conversa. Falei para ele: 'maninho, não fique com medo, você está no lugar certo'. Falei que o amava muito e ele foi intubado."

No dia seguinte, o Hospital Regional informou que Roseneide precisaria ser intubada após piora no quadro da doença. Na mesma noite, às 21h05, comunicaram à jornalista que a mãe não havia resistido.

"Eu já estava sozinha, meu namorado, meu pai e meu irmão intubados. Minha única preocupação era como contaria para eles que minha mãe havia morrido. Em 13 de março enterrei minha mãe sozinha, sem ninguém da família comigo. Ainda estava com o vírus, então ninguém podia chegar perto de mim", lembrou ela.

Morte do irmão

Apesar dos boletins médicos de Rafael apontarem algumas melhoras e afirmarem que ele respondia bem ao tratamento, ele morreu na noite de 15 de março, às 22h17. Súzan explicou que jamais pensou que fosse sentir tanta dor como naquele momento. A jornalista afirmou que chegou a pensar que morreria.

"Senti uma dor tão grande no meu coração, um sufocamento tão grande, que pensei que seria a próxima [a precisar ser internada]. Senti uma dor física mesmo, pensei que meu coração ia parar de bater. Meu irmão tinha 34 anos, ele era o meu maior parceiro da vida. Jamais imaginei, em toda essa situação, que ele fosse morrer. Pensava que ficaríamos sozinhos, eu e ele. Mas ele foi antes do meu pai."

Novamente sozinha, Súzan enterrou o irmão. Ela se apegou à possibilidade de que, milagrosamente, o pai receberia alta. Mas lembra de ter sentido como se a vida tivesse acabado naquele momento.

Atanacildo chegou a apresentar boa reação ao tratamento, mas a jornalista percebia a cada boletim que a situação do pai estava cada vez pior. Ele chegou a ter consequências nos rins e a pressão também não era mais estável.

Conexão

O boletim enviado pelos médicos em 19 de março mostrou que o quadro do pai era ainda pior. Súzan contou que naquele momento percebeu que precisava "deixá-lo partir".

"Entendi que a nossa conexão era muito grande e que ele estava lutando por mim, por sentir o meu sofrimento, só que ele também estava sofrendo muito. Rezei para Deus, falei: 'pai, permito que você vá embora, eu vou conseguir, eu vou ficar de pé, você me criou para ser uma mulher forte e eu vou aguentar. Não quero que você sofra mais, se você está esperando minha permissão, você pode ir embora, eu deixo'. Essa oração foi mais ou menos umas 20h, fiquei olhando para o celular, porque eu sabia que iam me ligar", relembrou.

Por volta de 2h, em 20 de março, a jornalista recebeu a notícia de que o pai havia falecido também. Emocionada, Súzan contou que a família permaneceu isolada durante um ano, apenas o namorado tinha autorização para entrar na casa, pois iam juntos para o trabalho.

Para entrar na residência, todos precisavam limpar os sapatos e tirar as roupas usadas fora de casa. A família também nunca deixou de higienizar as compras do mercado. De acordo com ela, os pais tinham pavor de pensar em contrair a doença e eram rigorosos no cumprimento das medidas de prevenção.

"Nesse um ano que passamos isolados tivemos muitos fins de semana felizes. A nossa alegria era fazer um churrasco, meu irmão tocava violão, cantava, a gente ria e se divertia. Praticamente todo fim de semana era assim, a gente se bastava para ser feliz", lembra.

Por: Bruna Barbosa Pereira - Colaboração para o UOL, em Cuiabá


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